segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Medo de falar em público e a psicologia evolutiva - segunda parte

Como vimos no post anterior, existe a autoimagem infantil, a primeira personalidade que desenvolvemos. Depois surge a autoimagem adulta, relacionada a tomadas de decisões mais sérias, complexas, ao instinto de luta, à ambição. Por fim, desenvolvemos a autoimagem de genitor. Cuidar, proteger, dedicar-se. É a personalidade da Grande Mãe, que explico mais tarde.
O problema está no fato de que quando os traços de insegurança e medos infundados, da autoimagem infantil, persistem e assumem lugar cronicamente em sua vida, isso caracteriza-se como Neurose Infantil. É ela que traz os medos infundados.
A Psicologia Evolutiva sugere que, através de um processo chamado de Visualização Guiada, façamos um "transplante" de personalidade sobre aquela criancinha chorona e birrenta que grita dentro de nós, que diz que as coisas não darão certo, que aquela plateia vai nos engolir ou que o avião vai cair, só porque ele balançou.
Antes de tudo, deve-se criar um MODELO.
A imagem que você desenhará como Modelo poderá ser uma personalidade famosa, que a seu ver saiba enfrentar as adversidades que sua autoimagem infantil não lhe deixa vencer. No caso do medo de falar em público, o Steve Jobs é um exemplo. Apenas um exemplo. Mas essa imagem também pode ser a de um "super apresentador" - o ar místico e vago trazem mais poder ao Modelo.
Agora vamos à Visualização Guiada. Nela você fará a criança se calar e o super adulto assumir seu papel - isso vai, através de exercícios de autossugestão positiva e trabalho sobre seu inconsciente, trazer-lhe o resultado esperado: livrar-se do seus medos.


Continua...

sábado, 20 de agosto de 2011

Medo de falar em público e a psicologia evolutiva - Parte 1

O medo infantil é cruel, pois quase sempre é infundado porque tem sua origem em algo inexistente: monstros debaixo da cama, o homem do lixo, um barulho forte, o escuro.
Em contrapartida, nessas horas os nossos super-heróis estão sempre lá pra nos defender. Quando somos crianças, desenvolvemos nossa confiança frente a essas situações através do acalento materno, do calor do colo de nossos pais. Nessa fase desenvolvemos a chamada autoimagem infantil.
Magoei...


Depois seguimos à fase adulta, e qualquer situação que ative nosso senso de competição, de autorrealização, sexo, decisões difíceis, e outros, ativa a nossa autoimagem adulta.
I need help, mommy...


Por fim, a última das etapas é o momento de nossas vidas em que viramos genitores. O ímpeto de cuidar, de proteger, zelar, criar, ativa essa autoimagem.


Desculpem por ter ficado contra a luz...Mas tinha que aproveitar o momento!!!


Muito bem. Vocês vão entender onde eu quero chegar. Quando passamos por diversas situações na vida, é normal que uma dessas autoimagens se ative. Normal.
O problema é quando alguma delas predomina. O psicólogo italiano Giulio Cesare Giacobbe chama de neurose infantil o predomínio da autoimagem infantil.
Assim, para entrar no tema, pra valer, imaginem-se dentro de uma jaula com um gorila, em um zoológico. O gorila é assassino. O gorila tem uma ficha invejável de 35 vítimas devoradas. O gorila é forte. Muito forte. E você está lá, no fundo da jaula, encurralado, e o zoológico fechado. O que você faz? Corre, apavorado, até acabar sua energia? Tenta barganhar com o gorila sua vida em troca de algumas bananas-prata? Grita como nunca gritou? Finge que é outro gorila?
Pois é... Difícil saber o que fazer, pois a adrenalina preenche cada vaso sanguíneo nosso, dá dor de barriga, e o medo (que, segundo Stephen King, é a primeira coisa que sentimos em nossa vida, ao sair da barriga de nossas mães) nos faz querer tomar atitudes fora da razão; fica parecendo impossível pensar.
Mas é possível pensar, sim. Quem diabos ia se meter dentro de uma jaula com um gorila assassino?
Esse é o ponto: a maioria de nossos medos é sobre algo que não existe. Criamos gorilas na nossa imaginação e os carregamos conosco até a fase adulta, inclusive quando já ultrapassamos a linha da autoimagem de genitores. Daí vem o pavor quando o avião chacoalha e parece que vai cair, ou a sensação de que, quando vamos fazer uma apresentação, aquela plateia de 114 pessoas vai, quando estivermos lá na frente,...eh...uh...vai fazer o que? Bom, não sei. Mas que muita gente tem medo dela, tem.
A psicologia evolutiva é, segundo o psicólogo italiano, uma boa saída para vencer esses gorilas. É o que gostaria de abordar com vocês nos próximos posts. Acompanhem.


Continua...

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Líderes, gestores e dirigentes



Betânia Tanure, Doutora, consultora e professora da PUC de Minas desenvolveu pesquisas ao longo de alguns anos acerca desses três papeis no ambiente corporativo. Todos são essenciais, com suas peculiaridades, e difíceis de mesclar, mas necessários.

Enquanto que, para alguns, ser gestor é o mesmo que ser "apenas" chefe, e o ideal é ser líder, para outros gestor e líder devem ser a mesma coisa. 

Mas a diferença básica é que o gestor é a fotografia de uma posição oficial na empresa, é formalmente um chefe. Não "apenas" um chefe. Cabe aqui lembrar que quando se fala no tema liderança, o nome chefe  já traz consigo o estigma de algo negativo, do mandão, do tirano dominante que vai causando, com o tempo, o desestímulo dos funcionários.

                Ai caramba! Mim? Mim, chefe!


Mas é totalmente possível, aliás, necessário ser um bom gestor. A boa articulação e viabilização de estratégias, processos e estrutura fazem de um gestor um bom gestor. Este tem a capacidade de fazer a empresa crescer de maneira consistente, com um desempenho cada vez melhor, nas menores a nas maiores mudanças, baseado em indicadores, históricos, planejamentos, execuções. Se pudermos eleger uma palavra que case com esse papel, ela seria a Razão.

Entretanto, claro, há pessoas por trás disso. Pessoas tem aspirações, desejos, bom e mau humor, forças e fraquezas. E é aí que entra o papel do líder. Segundo a professora Tanure, o líder opera com a energia que mobiliza a empresa. Seu foco está na cultura organizacional, na liderança, na cultura. Tive, esses dias, a oportunidade de conversar com a diretora da linha de produção de uma fábrica de bebidas. Ela me expôs a dificuldade que é ter que conhecer funcionário por funcionário, trabalhar com metas diárias de produção e motivar do chão de fábrica aos gerentes. Sua vida corporativa é uma negociação crônica, uma resolução crônica de conflitos. Certa vez, ela perguntou a um funcionário se havia conflitos em sua área, se ele estava bem com uma situação de atrito que vinha acontecendo, ao final de uma reunião (daquelas que sugam o que nos restava de energia para o resto do dia). Ele respondeu "Não, tudo bem...Está tudo bem". E não estava - havia faíscas pulando pelo ar. Até hoje, depois de vários anos de trabalho com ele, ela tenta provar a esse funcionário que conflitos sempre existiram e sempre existirão, e não é por causa disso que ganhamos um inimigo por dia. "Marcus", disse ela, "a produção quer engarrafar as bebidas e a manutenção quer parar a fábrica. Isso já não é um conflito?".


E é justamente aí que entra o segundo papel, o do líder. Ele consegue canalizar a energia negativa desses conflitos em produtividade, ele motiva a equipe e faz com que as aspirações de todos sejam as mesmas dele. Isso envolve cultura, valores corporativos e muito, muito jogo de cintura.
"Líderes são legitimados pelos seus liderados", diz a professora Tanure.

Segundo pesquisas recentes que ela desenvolveu em conjunto com um grupo da Wharton University e com Sumantra Ghoshal, da London Business School, existem traços comuns entre os líderes, e que são frequentes em muitos países: 

1) Visão de futuro - capacidade de compartilhar sonhos e de criar significado para as pessoas; 


2) Credibilidade - o líder age inspirado em valores como justiça e gera confiança; relacionamento mobilizador - ao relacionar-se, tem a capacidade de mobilizar o coração e a alma das pessoas. Para obter isso um dos principais requisitos é a comunicação competente; 


3) Comportamento "agridoce" - gera sofrimento, mas ajuda a cuidar dele (atenção: não é o bate-sopra típico das culturas paternalistas); 


4) Alto grau de autoconhecimento - ouve sua voz interior, conhece e reconhece seus pontos fracos. Aqui cabe lembrar do papa da Inteligência Emocional, Daniel Golemann, que sempre prega isso em seus livros.


5) Ambição e sucesso - afinal, ninguém gosta de seguir gente malsucedida. 

Bom lembrar também que nem todos são líderes o tempo inteiro e em todos os lugares, pois isso depende dos valores, do contexto em que o indivíduo está e da dinâmica dos grupos.

Em suma, se formos eleger agora a palavra de ordem para o líder, ela seria, nesse contexto, Emoção.

Agora unamos Emoção e Razão. Esse é o Dirigente. Se em uma mão o líder arrebata pessoas, e noutra o gestor cuida da eficiência operacional da empresa, podemos dizer que numa terceira mão o Dirigente consegue somar, independente de estar ou não no topo da hierarquia, os dois.

Segundo a professora Tanure, "o dirigente não opera apenas na manutenção, na melhoria contínua. Nem mesmo na mudança radical seu foco é apenas estratégia, processos e estrutura. Tampouco está focado fundamentalmente na dimensão das pessoas, da liderança e da cultura. Ele vai muito além: reconhece o fluxo natural e o altera, com coragem, com garra, como exige o mundo empresarial de hoje. Tem um propósito claro, uma visão de futuro que ilumina suas decisões e ações. Ele assume os riscos".

Difícil, mas aplicável. Depende de prática, estudo com afinco de pessoas e processos, ser bom negociador, instigar, motivar, estar atento aos números... Claro, ter talentos nessas áreas torna tudo mais fácil. Mas  é crucial, na vida de um "líder-gestor", uma equipe modelada de forma que suas capacidades sejam aproveitadas para que tudo aconteça da forma que citamos nesse texto.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Meu filho, você não merece nada (por Eliane Brum)

A crença de que a felicidade é um direito tem tornado despreparada a geração mais preparada.

Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.

Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.

Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste.

Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes.

Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.

É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais?

Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.

Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.

Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.

A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.

Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude.

Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa.

Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.

Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.

O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.

Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande.

Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.

Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espaço no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência.

Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba.



Texto de ELIANE BRUM
Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo).

sexta-feira, 8 de julho de 2011

GOL compra Webjet

Pare pra pensar no oligopólio (na verdade um duopólio) TAM e Gol. É interessante para o governo que seja assim, pois o caos aéreo no Brasil acontece justamente por causa da infra-estrutura dos aeroportos. Empresas como a Webjet e a Azul fomentam que classes C e D tenham a oportunidade de voar. Se só duas grandes empresas operam, o preço sobe e só os ricos voam. E aí os problemas de atrasos de voos, devido às altas demandas, acabam. Interessante para o governo.
E concordo que, provavalmente, a Gol não vá querer manter a Webjet como uma linha lowcost. Óbvio, pois ela sempre se anunciou como lowcost, a webjet mexeu pra valer com o seu ego.

domingo, 26 de junho de 2011

Business pelo telefone.

Dia desses eu entrei em um banheiro do Aeroporto de Congonhas, fazendo uma conexão, e havia uma fila de engravatados aguardando liberarem os boxes. Dentro de um deles, um carinha negociava ao celular, gritava, ria...Como se estivesse em sua casa. O que mais me impressionou foi que ninguém pelo menos esboçava uma risadinha com a situação. Tudo bem, todo mundo estava apertado, mas eu achei aquilo totalmente maluco! Eu ria sozinho! O cara negociava no celular e enviava um fax ao mesmo tempo*...






Experimente, se estiver de férias, ir no meio de uma manhã a uma padaria movimentada. A quantidade de gente produzida, fashion, que.acontece.com, com seus uniformes de super-heróis executivos e maletinhas de couro é enorme. É a hora em que o gel ainda está brilhando no cabelo dos homens, e o Dior comprado na viagem de fim de ano pela CVC pra Buenos Aires ainda exala fortemente das moças. São dois carinhas em uma mesa olhando um notebook; três em outra, com um deles falando alto, daquele jeito, ao celular - mais para os dois da mesa que pra pessoa do outro lado da linha. Lá no fundo, um solitário senhor de cabelos brancos, lendo jornal de papel, e não em um tablet, com um cafezinho abandonado pela metade. Com certeza pensando "Cara, ainda bem que me aposentei. Tá tudo mudado...".


Bom, montada a fotografia, quero dar uma boa dica a esses amigos life-is-short, so-let-me-make-more-money.

Já é lugar-comum dizer que todos negociam. Mas é interessante notar como isso tem acontecido cada vez mais à distância. Veja o caso da padaria. É gente pra cima e pra baixo e em todos os lugares possíveis carregando um celular, barganhando...Quem nunca ouviu algum engravatado, a quem darei o apelido carinhoso de Gordo Suado de Terno que Precisa Fazer um CheckUp, passando por perto e falando alto, como se o mundo fosse só ele e a outra pessoa do outro lado da linha. Melhor, do outro lado do mundo, pois geralmente um indivíduo desse tipo está gritando. "Não, fecha com cinco então, e dá o desconto".

Hoje muitos contratos são fechados também por e-mail - tenho um amigo que trabalha com websites e é quase sempre assim, tudo por e-mail.
Mas você já parou pra pensar o quanto é difícil negociar assim? Some tips for you, dude:

#1. Você não está vendo o que tem do outro lado! Imagine agora você, no meio de um trânsito caótico, precisando negociar pelo celular. E lá do outro lado, em uma confortável sala com carpete, cadeiras presidenciais, ar-condicionado e cheirinho da Le Lis Blanc, uma equipe de dois compradores, um gerente e um diretor olhando fixo para o telefone, no viva-voz, com um memorial de compras em mãos, cotações de concorrentes, e o histórico dos e-mails que você trocou com eles.
   DICA: seja sempre você o iniciador da chamada! Peça uns minutinhos, finja que está em uma reunião, ou simplesmente disfarce. Certa vez eu estava despreparado quando um cliente perverso me ligou. E eu divido sala com um colega que fala ao celular que nem o Gordo Suado de Terno que Precisa Fazer um CheckUp. O que fiz? Me aproximei do meu amigo, que falava ao telefone, e falei baixinho "Oi...tô numa reunião, posso te ligar já, já?". Foi o tempo que tive pra olhar e-mails, dar um telefonema, e assim vai. Em suma, seja sempre o iniciador da ligação. Quem a inicia tem mais poder de fogo.

#2. É mais fácil se distrair. Imagine só, a quantidade de coisa perto que pode nos chamar a atenção. Ainda mais para os multitarefas de plantão, que telefonam em frente ao computador, e deixam o outlook, o skype, o MSN e mais algumas coisas minimizadas. A gente definitivamente não nasceu pra fazer um monte de coisas ao mesmo tempo. Vá lá que as mulheres o conseguem com mais facilidade, mas isso não está na nossa essência. Li um livro recentemente chamado Por que Cometemos Erros, e essa é uma das maiores causas de nossos enganos. E a sociedade insiste para que o façamos cada vez mais. Se um indivíduo que tenta aumentar o volume do som do carro, olha o GPS e percebe que o celular está tocando bate o carro, o que vão fazer é aumentar o número de itens de segurança do carro, em vez de investir no motorista.
    DICA: foque na negociação. O computador não vai fugir, a pessoa parada à porta, esperando você desligar, pode voltar depois. A chance de fechar um bom negócio é uma só.

#3. Esquecemos facilmente as coisas. No livro que citei acima, citam-se estudos que mostram que o ser humano, pra se lembrar, precisa trazer significado a tudo. A rostos, a fatos, a nomes, rótulos.
    DICA: ANOTE TUDO!!!! Aliás, oficialize também. Mande um e-mail depois do telefonema, peça confirmação de leitura. Pra não ficar depois o dito pelo não dito.

#4. Ligue do skype. É mais barato. Hehe.

* Em tempo: segundo pesquisa recente realizada pela Insight Express and AdAge, 56% das pessoas nos Estados Unidos admitem usar o celular durante o #2. 70% delas telefonando, 62% enviando mensagens de texto.